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Exposição resgata memória da luta de assistentes sociais contra a ditadura

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Para recuperar a memória dos trágicos e violentos acontecimentos da ditadura civil-militar (1964-1985), que teve o apoio do grande capital no Brasil, e relembrar a resistência de assistentes sociais que, ao lado de diversos outros sujeitos sociais, viveram histórias de violação de direitos e lutaram bravamente pela liberdade e pela democracia no país, o CFESS organizou, durante o 15º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), a exposição Serviço Social, Memórias e Resistências contra a Ditadura.

 

O espaço foi mais uma ação do projeto de mesmo nome, lançado em 2013, e reuniu em uma sala temática com depoimentos, imagens, ilustrações e um vídeo sobre os/as assistentes sociais que enfrentaram a repressão.

 

“Resgatar estas histórias não é tarefa fácil, principalmente para as pessoas que viveram os terrores do regime militar, pois são dores e marcas que ficam para o resto da vida. Por isso, agradecemos a todas as pessoas que estão contribuindo para este Projeto”, disse o presidente do CFESS, Maurílio Matos, durante a abertura da exposição, na terça (6/9).

 

“Vemos coragem de sobra nestes depoimentos de assistentes sociais que, ainda que falem sobre medo e terror, tiveram forças para suportar e enfrentar a violência, a dor e o silêncio. Que foram à luta em defesa de outro tipo de sociabilidade”, reforçou a coordenadora da Comissão de Ética e Direitos Humanos do CFESS, Tânia Diniz.

 

Emoção e sensibilidade foram as marcas deixadas pela exposição. A professora da PUC-SP e assistente social Bia Abramides, presa e torturada durante a ditadura, chorou ao entrar no espaço. “É muita emoção ver os depoimentos e as imagens de companheiros e companheiras que estiveram conosco neste período tão sombrio”, falou durante a abertura. Bia foi uma das presas do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), em outubro de 1968.

 

Outra assistente social impactada pela exposição Serviço Social, memórias e resistências contra a ditadura foi a professora da UERJ Marilda Iamamoto. Ela também contribuiu, enviando seu relato. Em um dos trechos expostos no espaço, Marilda diz: “A tortura não é pra falar, a tortura é para calar, para calar para o resto da vida (...). Eu fui presa no dia 2 de dezembro de 1971 no DOI-CODI. Foram dois meses e dois dias. Passei por interrogatórios subsequentes, fiquei sem comer, sem água, sem dormir (...). Depois vieram as agressões, choques (...). Tinha um médico para ver até onde eu aguentava. Foram uns 15 ou 20 dias subsequentes assim. Tiraram minha roupa, me interrogaram seminua (...). Os torturadores diziam: “você está conosco, aqui ninguém ouve nada, você não tem nenhum contato externo, nós fazemos guerra, é guerra” (...). Isso não é só uma história de vida pessoal, isso é expressão pessoal de uma realidade que foi coletiva numa geração (...). Chega certo momento que é importante revelar, para elucidar o passado e os caminhos do presente e do futuro. É nessa direção que eu faço esse depoimento, ele é difícil pra mim”.

 

São estas histórias densas e profundas que precisam ser reveladas.  

 

A assistente social da prefeitura de Diadema (SP), Maria Angélica Luksys, achou o espaço maravilhoso. “Esse passado obscuro precisa ser mostrado a jovens do Serviço Social. Militei clandestinamente, acompanhei a anistia, ou seja, vivi parte um pouco desta história. Temos que dizer para as novas gerações qual foi a história real do Brasil”, disse a assistente social, que estudou Serviço Social de 1977 a 1980.

 

“Estou bastante emocionada por estar relembrando este processo histórico. E é importante que este projeto continue, pois vamos acompanhando a formação de novas gerações de militantes e estas pessoas têm que conhecer a história da ditadura militar”, ressaltou Marilda Nascimento, assistente social da prefeitura do Rio de Janeiro (RJ).

 

Várias pessoas sugeriram que a exposição seja itinerante. Não é para menos. O projeto resgata histórias de pessoas que não só lutaram contra a ditadura, mas que se mobilizaram porque defendiam outra concepção de sociedade. Uma sociedade que possibilite, conforme diz o Código de Ética, um pleno desenvolvimento para a invenção e vivência de novos valores, o que, evidentemente, supõe a erradicação de todos os processos de exploração, opressão e alienação.

 

Fonte: CFESS